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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Alienação e separação no ensino de Lacan


CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA: ALIENAÇÃO E SEPARAÇÃO

Por Flavia Bonfim

No Seminário 11- Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1998 [1964]), Lacan nos indica que o sujeito surge no campo do Outro, imerso na linguagem e como efeito de duas operações: alienação e separação. Dizem respeito a duas operações disjuntas, mas articuladas que abordam a relação do sujeito com o Outro. Convêm enfatizar que não se tratam de etapas, fases, remetendo a uma visão desenvolvimentista que a criança alcançaria, mas diz de uma lógica onde se insere a constituição do sujeito (logo, dividido e do inconsciente). Para falar de cada um delas, Lacan se serve da teoria dos conjuntos: reunião e interseção. 


ALIENAÇÃO

         
O sujeito é efeito do discurso do Outro. Antes de uma criança nascer, um lugar é preparado para ela no universo discursivo dos pais: eles falam daquela criança ainda na barriga da mãe, buscam escolher o nome perfeito, preparam seu quarto e seu enxoval, desejam que ela tenha tais e tais características, imaginam como serão suas vidas com uma nova pessoa no lar. Esse discurso que circunda a criança antes dela nascer molda seu desejo e suas fantasias. O discurso dos pais remete ao desejo deles por essa criança e é com isso que podemos afirmar que o sujeito é causado pelo desejo do Outro; o sujeito encontra-se alienado ao desejo do Outro.
Na alienação, partirmos de dois conjuntos: o do ser (sujeito) e o do Outro (sentido). O que está em jogo é uma escolha forçada entre o ser e o sentido. O sentido remete ao Outro da linguagem que constitui o sujeito. Se o sujeito escolhe SER, ou seja, escolhe não se alienar no campo do Outro, ele não se constitui. Mas se escolhe o SENTIDO, aceita alienar seu desejo no desejo do Outro, ele pode advir como sujeito. Ao escolher o sentido, há a perda do ser, pois o sujeito advém em outro lugar e não de si mesmo. Por isso, em psicanálise, não lidamos com o ser, nem falamos em essência no ser humano. Assujeitar-se ao Outro implica necessariamente na perda de si mesmo. Nesse sentido, o sujeito ($) surge em sua  falta-a-ser como efeito do significante. Por outro lado, ao assujeitar ao Outro, a criança se torna um sujeito da linguagem. Segue a abaixo o esquema:





A alienação diz da lógica da reunião, no qual está em jogo uma escolha que tem por conseqüência: nem um; nem outro. Para fazer-nos compreender o que se passa, Lacan nos apresenta a seguinte escolha imposta por um assaltante: “A bolsa ou a vida! Se escolho a bolsa, perco as duas. Se escolho a vida, tenho a vida sem a bolsa, isto é, a vida decepada.” ((1998 [1964], p. 201) Ou seja: escolhendo-se a bolsa (o ser, ser por ele mesmo), a vida é perdida e o sujeito fica impossibilitado de se constituir, cai no não senso. Por outro lado, escolhendo a vida (o sentido), este só subsiste decepado no qual algo é perdido. Dizer que o sentido só existe decepado, partido, é apontar que o humano se constitui dividido, tendo um saber e um não saber sobre si mesmo, sendo isto a dimensão do inconsciente no sujeito.


SEPARAÇÃO


A alienação vem demarcar que nenhum falante existe sem a relação com o Outro e que ele inicialmente se situa como objeto do desejo desse Outro, mas a separação salienta a tentativa do falante de se “separar”, sair do lugar de objeto e assim, realmente assumir a condição de sujeito desejante, portanto, faltoso. Na separação, o Outro não é o mesmo que o Outro da alienação. Ele aparece barrado, também faltoso. Logo, diz Lacan (1998 [1964]) que na separação está em jogo o recobrimento de duas faltas: a do sujeito e a do Outro.
Dizendo de outro modo, o encontro com a falta do Outro, com o desejo do Outro, abre ao sujeito a possibilidade de se identificar com esta falta e ocupar, inicialmente, o lugar do objeto da falta ao Outro. É a maneira como o sujeito tenta inicialmente se situar diante do desejo enigmático do Outro. Sobre isso, Lacan comenta: “Nos intervalos do discurso do Outro, surge na experiência da criança, o seguinte, que é radicalmente destacável – ele me diz isso, mais o que é que ele quer?” (1998 [1964], p. 203 ) Nisto, o sujeito constata que essa relação é marcada por um desencontro, ou seja, o Outro deseja além dele, o Outro é barrado; a criança não é capaz de tamponar o desejo materno. Isso permite ao sujeito, sair do lugar de objeto e escolher pelo desejo, situando-se como sexuado, através de identificações que lhe marcam. Sobre a falta do Outro, escreve Fink:

O Outro materno precisa mostrar algum sinal de incompletude, falibilidade, ou deficiência para a separação se concretizar e para o sujeito vir a ser como $; em outras palavras, o Outro materno deve demonstrar que é um sujeito desejante ( e dessa forma também faltante e alienado), que também se sujeitou á ação da divisão pela linguagem, para que testemunhemos o advento do sujeito. (1998, p. 76)




Para Lacan, a separação diz de uma operação de interseção. Mais ainda, considera que na interseção entre o sujeito e o Outro, não há nada, o lugar está vazio. Lugar, este que será ocupado pelo objeto a, objeto causa de desejo. Isto é: diante da operação que se expressa na de separação, o que temos é uma divisão (do sujeito e do Outro), que tem como resto o objeto a. Sobre o objeto a, Lacan é preciso: “Na medida em que ele é a sobra, por assim dizer, da operação subjetiva, reconhecemos estruturalmente neste resto, por analogia de cálculo, o objeto perdido.” (2005 [1962-63], p. 179) O objeto a é o último indício de uma unidade hipotética entre mãe-bebê, de uma satisfação mítica, sendo por meio de uma relação com ele que o sujeito constrói sua fantasia, $ a (Sujeito dividido em relação ao objeto a). Fantasia, esta, de completude, apontando para o lugar que ele supõe estar em relação do desejo do Outro.



REFERÊNCIAS:

  • FINK, Bruce. O sujeito lacaniano: entre o gozo e a linguagem.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

  • LACAN, Jacques. Seminário 10 – A angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

  • ______ O sujeito e o Outro (I): a alienação. In: Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.



 

6 comentários:

  1. Muito legal o texto. Destaco a inclusão das referências. Parabéns!

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  2. eu tive um orgasmo intelectual aqui... Por nada nesse mundo eu conseguia entender com clareza a constituição do sujeito em Lacan, muito obrigado pela clareza e capacidade de síntese excelentes <3

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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