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domingo, 3 de julho de 2011

"Ritalina: a "droga da obediência"

Reportagem do Terra Magazine

Psicóloga: Ao invés de reverem a educação, usam Ritalina
Ana Cláudia Barros

O aumento do consumo de Ritalina na rede municipal de saúde de São Paulo não é pontual. O Brasil é o segundo país que mais utiliza o Cloridrato de Metilfenidato (princípio ativo do medicamento), perdendo apenas para os Estados Unidos, destaca a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença. A substância é adotada no tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Não são poucas as hipóteses levantadas para explicar esse crescimento. Na avaliação de Marilene Proença, a Ritalina, apelidada pelos críticos de "droga da obediência", tem sido adotada como subterfúgio para escamotear falhas no sistema educacional.
- Estamos tendo uma precarização da qualidade do ensino oferecido para alunos na fase de alfabetização. Se a criança não está atenta na escola, se não está escrevendo corretamente como deveria, isso é um problema educacional, pedagógico. Quer dizer que não estamos conseguindo dar conta de uma alfabetização adequada. Mas de repente, há uma epidemia de crianças que não prestam atenção? Não faz sentido. Nasceu uma geração que não presta atenção? A geração anterior prestava e a atual não presta? - indaga Marilene, que também é membro da diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional.

- Consideram que o fato de o aluno não aprender não tem a ver com a questão pedagógica, mas é um problema dele, como se fosse algo orgânico que tivesse dificultando a aprendizagem. A mudança de comportamento estaria sendo feita pela medicação, e não por uma pedagogia adequada - completa.
Já para a professora titular do Departamento de Pediatria da Unicamp, Maria Aparecida Moysés, há uma tentativa de "abafamento dos questionamentos".
- Ritalina e Concerta (também tem o Metilfenidato como príncipio ativo) estão sendo prescritos para crianças que incomodam. Existe uma pressão da indústria farmacêutica, mas creio que há também o ideário de um abafamento de questionamentos, de normalização das pessoas. Todos homogêneos. Pode ser que não seja esse o objetivo, mas é o que acaba acontecendo, porque toda criança que questiona tem TDAH. Você medica e aborta o questionamento. Estamos cada vez mais usando remédio para tudo. Não há mais gente triste. Há gente deprimida. A tristeza incomoda. Te mandam tomar um Prozac. A vida está sendo retirada de cena, porque é irregular, caótica, tem altos e baixos, diferenças. O que está acontecendo é que quem não se submete é quimicamente assujeitado.

Quadro nacional

De acordo com a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença, os conselhos regionais da categoria irão promover ações locais para "levantar a problemática em seus estados".
- Até novembro, esperamos ter um quadro nacional - afirma.
Dados do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos mostram que de 2000 a 2008, a venda de caixas de metilfenidato saltou de 71 mil para 1.147.000, um aumento de e 1.615%. Os números não consideram receitas de medicamentos manipulados ou comprados pelo poder público.
A comercialização da Ritalina é regulada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Embora o medicamento - classificado no anexo da Portaria 344/98, na lista das substâncias psicotrópicas -, só possa ser adquirido com receita especial, é fácil consegui-lo clandestinamente. Uma breve busca pela internet revela que não são esporádicas as ofertas da droga.
Relatório do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa de 2009 - dado mais atualizado da entidade sobre o metilfenidato - destacou que há vários estudos e questionamentos quanto ao uso massivo e efeitos secundários da substância, "pois sua utilização já está ocorrendo entre empresários, estudantes, para emagrecimento e até em uso recreacional na forma triturada como pó ou diluído em água para ser injetado".
O relatório informa ainda que a maior preocupação em relação ao Cloridrato de Metilfenidato está, na verdade, relacionada ao seu "mau uso", e não à utilização da substância nos casos de TDAH. Mas pondera ao ressaltar que o medicamento não é indicado para todos os pacientes da doença. O documento acrescenta :
- Segundo estudo publicado em 2009, somente entre 2002 e 2006, a produção brasileira de metilfenidato cresceu 465 por cento. Sua vinculação ao diagnóstico de TDAH tem sido fator predominante de justificativa para tal crescimento. Mas os discursos que circulam em torno do tema e legitimam seu uso também contribuem para o avanço nas vendas.
A psicoterapeuta Cacilda Amorim, do Instituto Paulista de Déficit de Atenção (IPDA), ressalta que as exigências do mercado de trabalho têm provocado aumento na procura por estimulantes cognitivos.
-Hoje, existe uma pressão muito grande para o desempenho de qualidade, principalmente em adultos, em situações de trabalho que não garantem as condições mínimas para que isso seja possível. Em qualquer área, a quantidade de coisas que se espera que a pessoa faça, aprenda, desenvolva. Se não desenvolver, ela se sente inadequada.

"zombie like"

Crítica implacável do traramento com Ritalina, a professora da Unicamp, Maria Aparecida Moysés afirma que a aparente calma promovida pela droga em crianças não é efeito terapêutico, mas "sinal de toxicidade".
- Tem o mesmo mecanismo de ação das anfetaminas e a cocaína. Ele é um derivado de anfetamina. É essa a complicação. Ele age aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A dopamina é um neurotransmissor associado às sensações de prazer.Não é todo mundo que fica mais concentrado. Em torno de 40, 50% ficam mais focado, que é o efeito da anfetamina e da cocaína. Mas foca a atenção no que passar na frente, não necessariamente nos estudos.
Segundo ela, as reações adversas acontecem em todo os órgãos.
- No sistema nervoso central, você tem psicose, alucinação, suicídio, que não é desprezível, cefáleia, sonolência, insônia. Um dos mais importante é um efeito que, em farmacologia, é chamado de "zombie like". A pessoa fica contida em si mesma. Passa a agir como se estivesse amarrada. No sistema cardiovascular, por exemplo, os efeitos são hipertensão, arritmia, taquicardia, parada cardíaca. É uma droga perigosa. Eu não daria para um filho meu.

REPORTAGEM NO LINK: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5208933-EI6582,00.html

2 comentários:

  1. Esse assunto é polêmico e complexo. Primeiro, porque quem receita a substância são os médicos, após a valiação clínica das crianças, que saõ encaminhadas por apresentarem comportamento inadequado. Segundo, porque quem faz essas críticas provavelmente não convivem no dia a dia com uma turma repleta de alunos com todo tipo de problema e que muitas vezes julgam sem ter conhecimento de causa. O Brasil é um país com alto índice de analfabetismo e de pessoas miseráveis, e que está formando uma geração de crianças com todo tipo de desajustes: orgânicos, sociais e de comportamento. O problema é grave, muito grave e não vai ser resolvido com "estudiosos" fazendo suas críticas aos setores da saúde e da educação. O problema é muito maior. É simplista afirmar que a "droga da obediência", tem sido adotada como subterfúgio para escamotear falhas no sistema educacional. Hoje, cada vez mais crianças precisam sim do uso de certas substâncias e a responsabilidade não é do sistema educacional apenas. Vamos ser mais realistas, faça-me o favor!

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  2. Gesiane,
    Parece-me que você fala como alguém que vive ou conhece mais de perto a difícil realidade de sala de aula e levo em conta sua opinião. Por outro lado, a partir de minha experiência clínica gostaria de fazer também alguns comentários. Temos que admitir que convivemos com uma precarização do sistema educacional brasileiro. Os professores são mal remunerados e precisam trabalhar em mais de uma escola para complementar a renda - o que lhe gera desgastes, especialmente para lidar com alunos que fogem a norma, mais agitados e que apresentam dificuldades e sintomas que se referem ao contexto educacional. O educador é muito exigido e pouco lhe é oferecido. Além disso, como dizia Freud, educar é uma operação impossível, tal como governar e analisar.
    Penso que a reportagem não faz uma afirmativa a respeito do problema do uso abusivo ser de responsabilidade exclusiva do sistema educacional, muito menos do professor. O que o artigo levanta como questão é indagar por quê atualmente um número tão grande de crianças não presta mais atenção. Será que não há algum problema na escola? Mas trata-se sobretudo de poder questionar por quê o uso dessa substância aumentou mais de 1500%. É preciso questionar todos os campos: médico, farmacêutico, familiar, pedagógico, psicológico e social. Uma série de fatores estão ais implicados quando pensamos no chamado "TDAH" e na sua forma de tratá-lo.
    Eu questiono a Ritalina e coloco-me contra ao uso indiscriminado dessa substância na medida em que aposto ser possível tratar daqueles que de fato tem um problema pela via da palavra, sem adormecer o sujeito e dando espaço para a criança elaborar seu sofrimento. Falo como quem já tratou de crianças desse tipo e obteve resultados positivos, sem o uso da medicação. Calar o sintoma (o medicamento faz isso), sem intervir em sua causa é como aliviar uma dor de cabeça causada de um problema mais sério no estômago. A causa sempre estará lá a produzir efeitos futuros.
    Falo também como quem já teve a experiência de ouvir uma criança super agitada, que não parava quieta, sem concentração alguma, antes e depois do uso da medicação. Com a medicação ela estava calma... sem dúvida, mas seu semblante era de aprisionamento, crianças/sujeitos adormecidos, anestesiadas, quase um zumbi... Foi aterrorizante a imagem.

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